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Cláudio Trindade

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Fernando C. Boppré comenta a produção híbrida de Cláudio Trindade e o define como "um artista-poeta iconoclasta: poemas que se transformam em objetos, artista visual que é também poeta".
Cláudio Trindade,
Cláudio Trindade, "Natureza-Morta", 2006.

Fernando C. Boppré

“Antes de ser impresso, esse

poema foi quatro linhas

de chumbo com as letras em relevo”

(Linotip, Joan Brossa)

“Antes de ser texto, esse

ensaio foi três linhas

(Cláudio Trindade, Fernando C. Boppré, Maurício Muniz)

de conversa verbal, virtual e fiada”

(Ode a Linotip de Joan Brossa, Fernando C. Boppré)

O poema-objeto “Tipos Soltos”, antes de ser um objeto artístico, era apenas linhas de chumbo de tipografia, com letras em relevo, prontas para terem sua função útil desempenhada: imprimir. Eis que surge Cláudio Trindade, que puxa seus tipos do lado inicial para o seu inverso, constrangendo espacialmente o objeto. É de seu oposto, de sua superfície inútil que surgem as costas dos tipos, que são ora levantados, ora rebaixados. Já em “Natureza-morta”, título sobretudo irônico, utiliza procedimento semelhante. Aqui, contudo, trabalha com câmara de pneu. Na borracha feita para rodar, descobre pontas, vales, volumes. Os resultados: geografias mínimas feitas de chumbo e de borracha.

Cláudio Trindade se espraia entre a superfície dos objetos, estudando toda a sua potência visual. Em seu fazer, de uma parte, põe em crise o sentido do objeto e, de outra parte, o inunda de novas possibilidades. Assim, um estranhamento inicial toma conta do espectador, deparando-se com o próprio processo pelo qual o objeto atravessara nas mãos do artista.

Para tanto, os procedimentos de Trindade são os mais variados: por vezes agrupa objetos em módulos, amarrando-os entre si. Outras vezes, parte-os ao meio, descobrindo o não-visto do objeto. Trindade anuncia com sua ação artística uma verdadeira varredura poética das coisas deste mundo. Pobre do objeto que cai em suas mãos: nunca mais será o mesmo.

Objetos enlouquecidos: cindidos por parafusos, porcas, borboletas, divididos ao meio, inteiros, atravessados por outros objetos, justapostos, reunidos, isolados, confusos. Talvez isso: Cláudio Trindade confunde (abatoca, atalha, atarraca, atrapalha, atravanca, embaraça, embarranca, embatoca, embatuca, enreda, enturva, implica. Isso só para se deter ao dicionário, fora dele, ensaia-se: desfoca, destrona, desenrola, ultrapassa, atomiza, por fim, desloca).

Um artista-poeta iconoclasta: poemas que se transformam em objetos, artista visual que é também poeta. A operação poética de Cláudio Trindade encontra, logicamente, raízes em Marcel Duchamp. E em Joan Brossa também. Nos concretos, igualmente. Em comum entre as referências, o fato de terem estes artistas e movimento jogado com o limite da questão: o que é a arte? O que é o poema? E, em última instância: o que é o artista?

Duchamp odiava os artistas. Pelo menos, o modelo padrão de artista: o virtuoso, o sensível, o mestre das formas. Tanto que se escondia em bibliotecas (como Jorge Luis Borges: coincidência?). O francês que fora morar em Nova Iorque, que desenhava simples moedores de chocolate para não ter que fazer paisagens, retratos ou algo que se esperava de um artista plástico. Deslocou a si próprio ao mudar de cidade e quando cansou de desenhos de moedores de chocolate, foi até uma loja de ferragens, comprou uma pá de neve (de ferro galvanizado, com um cabo de madeira), chegou em casa, assinou-a, amarrou-a a um arame e a pendurou no teto.

O gesto de Duchamp – com a instauração dos ditos ready-mades – inaugurou uma ampla gama de objetos e discursos sobre a arte que são, por sinal, fortes referências da arte contemporânea. Tirou a arte das telas de pintura, lavou os olhos do público, mandou os críticos aos ares. Na literatura, Joan Brossa tratou de agitar as coisas também. De cartas de baralho extraía poemas que eram verdadeiros objetos, ou talvez, objetos que eram poemas. Em 2006, tivemos a sorte de receber originais deste poeta catalão em exposição que rodou diversos museus brasileiros (MARGS, Maria Antônia-USP, MAM-RJ). Brossa é outra importante referência de Trindade, que chegou a expor uma “Antiode a Joan Brossa”. Pouco importa, na verdade, definir os trabalhos de Brossa ou de Trindade como poemas ou obras de arte, como artistas ou poetas.

O próprio Cláudio Trindade parece estar pouco interessado em se definir como poeta ou artista visual – situação que parece persegui-lo já que, de uma forma ou de outra, antes de ser publicado ou exposto em alguma edição ou instituição, sempre se procura mapear de onde vem o artista, pesquisando se seu trabalho tem consistência (currículo) e profundidade (formação). Uma rotina historicista comum tanto às editoras, quanto aos museus e universidades. A ambigüidade, no entanto, é um dos fundamentos de seu trabalho e, nesse sentido, não há razão em querer dissipá-la, nem mesmo em nível institucional.

Outro elemento importante em seu trabalho é a auto-reflexibilidade. Dialoga criticamente com a produção de Duchamp, Joyce, Brossa, Borges, Haroldo de Campos, Mondrian. Nomes que, por sua vez, também procederam com uma reflexibilidade corrosiva sobre si próprios e sobre a arte e que acabaram por implodir códigos, inovar símbolos e extraviar formas. Cláudio Trindade envereda sua poesia, sua formação: a letra vira objeto, o poeta se torna artista visual. Livro para se ver, objeto para se ler. Imagens, símbolos, dimensões, técnicas, jogos, está tudo ali, mesmo que atomizado, tensionado, como uma bomba H.

A simplicidade de seus trabalhos surpreende. Bolas de snooker. Peças de dominó. Guarda-chuvas. Dados. Lentes de aumento. Adolfo Montejo Navas, ao falar sobre Brossa no catálogo da referida exposição, diz que os poemas-objetos se destacam pela “poupança e economia”, pois sua razão ‘imagética’ e lingüística, “em um mundo tão objetualizado, vai descansar precisamente na recuperação de seu poderio mágico, na possibilidade de uma reflexão visual e de outra materialidade ou formulação poética: mais insinuação do que demonstração”. A vertente explorada por Trindade desvia-se da verborragia de boa parte da produção contemporânea que, por vezes, toma o objeto como mero pretexto para proposições imperativas: “Faça isso!”, “Use esse objeto para aquilo!” e por aí vai. É certo que o objeto já não é mais sacralizado, mais ainda que o conceito é algo fundamental no trabalho artístico, no entanto, é preciso mais que idéias: o ato de realizar, trabalhar sobre a matéria, não é desprezível no fazer artístico, lembra-nos o trabalho de Trindade (e também, evidentemente, de Marcel Duchamp, de Lygia Pape, de Nelson Leirner, de Guto Lacaz, entre outros).

A materialidade dos objetos de Cláudio Trindade, porém, é entremeada, entrecortada, circundada pelo vazio. É talvez o vazio sua maior conquista. Um vazio visual, mas também poético, lido como silêncio. Isso se observa já em “Ruído Branco”, seu segundo livro, com poemas escritos: “um silêncio / quase sem som / devora / -se a / si mesmo / e cai / como a luz / e sua ambigüidade / como o vento / que erra / e / se / dis / sol / ve... / como a tarde / revestida de / escuros e / opostos / como a noite / áspera / que o céu estala / e a / re / vela / e não”. Este vazio está presente ainda em seu trabalho gráfico – de caráter profissional – onde se destaca o apuro e um cuidado em preservá-lo. Por sinal, muito em razão de sua experiência profissional com as artes gráficas, Trindade finaliza seus trabalhos como poucos. Um acabamento plástico e formal invejável, pouco comum a estética do precário que assinala a contemporaneidade.

Cláudio Trindade é um artista que trabalha oculto enquanto outros aparecem. Sente-se pouco a vontade no atual campo artístico repleto de estrelas cadentes. No curto circuito da arte contemporânea – repleta de equívocos e de grandes sacadas, que muitas vezes se legitima pelo rótulo – talvez haja realmente pouco para se ver. E sentir. Cláudio Trindade é o outsider deste curto circuito. De qualquer forma, exilou-se.

A Notícia, 5 de janeiro de 2007.

Fernando C. Boppré

18/01/2007

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